A Chanel de Matthieu Blazy transforma a alta-costura em um conto de fadas adulto: botânico, joalheiro, leve e profundamente conectado aos códigos da maison. Nesta análise, vamos entender como tweed, pérolas, correntes e liberdade feminina aparecem atualizados — e como traduzir esse jardim couture para produto, styling, vitrine e venda.

9 jul, 2026

AChanel Haute Couture Inverno 26/27 constrói uma coleção em que fantasia e vida real caminham juntas. Matthieu Blazy parte de um imaginário de conto de fadas para olhar a própria trajetória de Gabrielle Chanel: uma mulher que saiu de uma origem simples, subiu seu próprio “pé de feijão” e transformou instinto, coragem e inteligência em uma nova ideia de liberdade feminina. Por isso, o desfile não usa a fantasia como fuga infantil, mas como linguagem sofisticada de transformação.
Os códigos da maison aparecem com muita clareza: o tweed vira treliça, a corrente vira cipó, a pérola vira semente, o botão vira joia, o sapato bicolor vira escultura e a camélia se expande para um jardim inteiro. Ao longo da análise, os percentuais ajudam a entender o peso real de cada elemento dentro do desfile: o que foi detalhe pontual, o que apareceu como repetição estratégica e o que merece atenção comercial para produto, styling, vitrine e comunicação.
O ponto forte da coleção está na capacidade de fazer alta-costura sem depender do “big wow”. O impacto vem da precisão, da matéria, do detalhe e da facilidade aparente. Blazy reforça uma Chanel mais livre, menos presa ao corpo, menos teatral e mais possível de imaginar em mulheres reais: túnicas, casacos, tailleurs, vestidos retos, calças, coletes e sapatos usáveis, ainda que preciosos.

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O mood board da coleção nasce de um conto de fadas Chanel, mas sem ingenuidade. Blazy imagina a carreira de Gabrielle Chanel como uma narrativa de ascensão, transformação e descoberta do próprio ouro — uma leitura que conversa diretamente com “Jack and the Beanstalk”, ou João e o Pé de Feijão. O cenário com cipós gigantes, flores surreais e vegetação quase invasiva cria a sensação de um jardim que cresceu demais, como se a natureza tivesse tomado conta da couture. Essa fantasia aparece nas roupas por meio de bordados em forma de ramas, treliças, fios vegetais, folhas, cipós, plumas, flores 3D, dourados, pérolas e acessórios com ovos, frutas, pássaros, gatos e pequenos elementos de natureza preciosa. Também existe uma camada de “Jumanji” e flores tóxicas: não é um jardim delicado demais, mas um jardim fantástico, um pouco selvagem, onde as texturas parecem crescer sobre o corpo.
Ao mesmo tempo, a coleção nunca abandona a vida real. Esse é o ponto mais interessante. A fantasia está no botão, no colar, no sapato, na bolsa, na pluma, na corrente e no bordado — mas a base das roupas continua possível: túnicas, vestidos retos, casacos, calças, tailleurs, coletes e sapatos bicolores. A presença de referências como “Puss in Boots”, “The Ugly Duckling” e “Goldilocks” aparece de forma indireta, nos gatos, pássaros, ovos, plumas e na ideia de intimidade doméstica. Blazy também reforça a Chanel como roupa de liberdade: menos corset, menos excesso teatral, mais movimento e mais espaço para a mulher caminhar. O casting com diferentes idades amplia essa leitura, mostrando que o encantamento não pertence apenas a uma fantasia jovem ou inalcançável. É uma coleção sobre redescobrir o prazer de se vestir — com sofisticação adulta, leveza e uma magia muito Chanel.
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