A herança equestre encontra alfaiataria afiada, preppy rebelde e sensualidade noventista. Demna atualiza os clássicos da Gucci com proporções marcantes, acessórios protagonistas e um styling que faz peças conhecidas parecerem novas.

26 set, 2026

AGucci está bem-vestida, mas não necessariamente bem-comportada. Para o SS27, Demna aproxima personagens que poderiam pertencer a guarda-roupas diferentes: a mulher de referências equestres, a burguesa milanesa, a garota que desorganiza o uniforme do colégio e a figura glamourosa que só aparece depois de escurecer. O ponto de encontro está na atitude. A alfaiataria fica mais próxima do corpo, os ombros ganham pontas, os acessórios aumentam de presença e a sensualidade aparece tanto numa camisa parcialmente aberta quanto num vestido que praticamente se sustenta sobre a pele. A coleção transita entre respeitabilidade e provocação, sem escolher apenas um dos lados.
Apresentado em 25 de setembro de 2026, em Milão, o desfile recebeu o nome The Store Show. O cenário reproduzia uma loja Gucci e antecipava a direção imaginada por Demna para os futuros espaços da marca. A escolha faz sentido: em vez de apresentar uma única personagem, a coleção reúne diferentes maneiras de entrar no mesmo universo. Nas fotos, essa passagem fica clara — da montaria à alfaiataria preta, das franjas ao encontro entre rugby e saias plissadas, até os vestidos finais. A loja vira o lugar onde todas essas “Guccis" podem conviver.
O preto domina, mas está longe de funcionar como ausência de informação. Ele aparece liso, brilhante, felpudo, rendado, franzido e estruturado. Essa variedade permite que a coleção permaneça visualmente conectada enquanto muda de personagem. A mesma base escura pode vestir a alfaiataria mais precisa, a jaqueta de atitude rebelde ou a noite de recortes e transparências.
As cores entram para interromper essa continuidade: azul nas camisas e no tartã, verdes nas sobreposições, vermelho nos casacos e xadrezes, roxo no encerramento. Já os aviamentos fazem o trabalho de reconhecimento. Ferragens, correntes, zíperes e franjas não ficam escondidos no acabamento: participam da imagem e, em alguns momentos, tornam-se a principal razão para olhar novamente.
CORES
Preto — 79,1% dos looks (34/43): é a principal base da coleção. Sua atualização acontece pela diferença entre superfícies, pela silhueta e pelos acessórios, não pela necessidade de acrescentar outra cor.
Branco e off-white — 39,5% (17/43): aparecem principalmente na camisaria, nas calças e no chemise. Golas e punhos claros recortam as sobreposições e deixam o styling mais legível.
Verdes — 25,6% (11/43): atravessam oliva, militar, floresta e um verde mais claro. Entram em jaquetas, malhas, blusas e estampas, conectando referências equestres, utilitárias e colegiais.
Azuis — 18,6% (8/43): a família vai do marinho ao celeste e ao azul elétrico. O celeste aparece em 7%, enquanto os azuis mais intensos de casaco e tartã chegam a 4,7%.
Vermelhos, vinho e bordô — 18,6% (8/43): aparecem em peças protagonistas e nos desenhos de listras e xadrezes. A intensidade muda, mas a função permanece: acrescentar tensão à base escura.
Marrons e caramelos — 16,3% (7/43): surgem no couro, nas superfícies felpudas e nas estampas. Trazem calor e uma leitura de guarda-roupa construído ao longo do tempo.
Cinzas — 14% (6/43): aparecem em saias, calças, denim e desenhos de superfície. São importantes para aproximar o glamour de uma linguagem mais urbana.
Bege e nude — 7% (3/43): passam pelo trench, pela estampa de lenço e pelo vestido final. A mesma família vai da roupa de dia à sensualidade quase contínua entre tecido e pele.
Rosas, magentas e roxos — 7% (3/43): aparecem nas camadas preppy e no vestido fluido final. O roxo aberto, sozinho, ocupa 2,3% dos looks.
Dourado nas roupas — 4,7% (2/43); prateado — 2,3% (1/43): o primeiro aparece em ornamentação e estampa; o segundo concentra o impacto do minivestido luminoso. As joias não entram nessa contagem.
AS COMBINAÇÕES QUE MERECEM ATENÇÃO
O encontro entre azul-claro, branco e oliva atualiza a imagem equestre. Vinho, verde e preto dão profundidade ao preppy. Marrom e azul elétrico criam contraste entre a jaqueta e o tartã. Nos acessórios, a tote magenta sobre roupa preta mostra como uma única peça pode mudar a temperatura do look.
AVIAMENTOS
Bridões em roupas e cintos — 34,9% (15/43): aparecem em pequenas aplicações ou ampliados sobre a cintura e o quadril. O mesmo código muda de escala sem perder reconhecimento.
Zíperes aparentes — 25,6% (11/43): reforçam a linguagem das jaquetas e do minivestido de couro. A abertura frontal participa do desenho, em vez de desaparecer na construção.
Laços e amarrações no pescoço — 16,3% (7/43): acrescentam drama às blusas e fazem a parte superior do look ganhar presença, mesmo quando a cartela permanece inteiramente escura.
Franjas na cintura e no quadril — 9,3% (4/43): criam uma camada de movimento sobre saias e calças. Aqui, a franja funciona como produto de styling, não apenas como acabamento de barra.
Bordados e brilho aplicado — 9,3% (4/43): aparecem de forma concentrada em peças de imagem. O impacto vem do contraste com os muitos looks de superfície mais contida.
Contrapeso metálico em gota — 2,3% (1/43): no vestido final, o detalhe ajuda a manter o drapeado no lugar. É um exemplo de aviamento que resolve a construção e também cria interesse visual.
TECIDOS & TEXTURAS
Couro e superfícies de aparência semelhante — 18,6% (8/43): aparecem em casacos, jaquetas, vestido e saias. O material ganha diferentes atitudes conforme fica ajustado, arredondado ou plissado.
Pelos e superfícies felpudas — 18,6% (8/43): criam volume em casacos, jaquetas, golas e peças carregadas no braço. A origem da fibra não pode ser determinada pelas fotografias.
Tricôs e canelados identificáveis — 16,3% (7/43): aparecem em sobreposições, golas e punhos alongados. A malha acrescenta uma camada cotidiana ao guarda-roupa mais produzido.
Superfícies acetinadas — 9,3% (4/43): trabalham luminosidade e movimento em blusas, calças e vestido. O brilho é contínuo, diferente do efeito pontual das aplicações.
Tecidos fluidos e drapeáveis na noite — 9,3% (4/43): permitem assimetrias, recortes e volumes que acompanham o corpo. A construção ganha importância sem depender de estampa.
Tweed e superfícies tramadas — 7% (3/43): aparecem em peças de referência clássica. A textura ajuda a tornar o conjunto reconhecível, enquanto proporção e styling retiram sua formalidade excessiva.
Renda e lingerie de superfície rendada — 7% (3/43): aparecem sob peças volumosas ou na roupa de noite. O contraste entre delicadeza e peso visual é mais importante do que a transparência isolada.
Denim ou leitura visual de denim — 4,7% (2/43): aparecem na camisa escura mais curta e na calça de lavagem escura. A proposta é mais próxima do corpo do que do jeans oversized.
Superfície acamurçada — 2,3% (1/43): a jaqueta oliva acrescenta uma textura mais opaca entre couro, brilho e materiais felpudos.
ESTAMPAS
Xadrez e tartã — 16,3% (7/43): aparecem em conjuntos, saias e camisaria. O tartã ganha protagonismo quando encontra bomber, correntes e cinto sobre o quadril.
Listras — 20,9% (9/43): dividem-se entre a camisaria riscada, em 9,3%, e as polos de referência rugby, em 11,6%. São dois códigos clássicos usados com atitudes diferentes.
Florais e desenhos ornamentais — 7% (3/43): entram em superfícies escuras, algumas de baixo contraste. Funcionam mais como profundidade visual do que como romantismo delicado.
Onça — 2,3% (1/43): concentra sua força em um casaco longo. A estampa ocupa a peça inteira e dispensa outros pontos de cor.
Estampa de lenço com correntes — 2,3% (1/43): aparece no top e conversa diretamente com os colares e as ferragens da cintura.
O reconhecimento não depende de repetir o mesmo look. Depende de fazer os mesmos códigos atravessarem produtos diferentes.
A coleção trabalha dois caminhos principais para a parte de cima: a precisão da roupa ajustada e o volume das jaquetas arredondadas. Na alfaiataria, os ombros elevados criam uma silhueta mais incisiva. Um detalhe importante: os ombros pagode foram apresentados como construções sem enchimento, mostrando que efeito de ombreira e uso de ombreira não são necessariamente a mesma coisa.
O styling faz a transição entre essas propostas. Camisas aparecem por baixo de polos, punhos escapam das mangas, correntes ocupam o colo e cintos descem para o quadril. A roupa conserva referências conhecidas, mas perde a obrigação de parecer correta. É aí que o desfile se torna especialmente útil: parte da novidade pode ser construída pela combinação, sem exigir uma peça totalmente inédita.
SHAPES
Calças de perna estreita — 27,9% (12/43): incluem propostas skinny, slim, capri e fusô. A parte de baixo mais próxima do corpo equilibra casacos, jaquetas e detalhes de ombro.
Ombros de ponta elevada mais evidentes — 25,6% (11/43): aparecem em alfaiataria, couro, blusas e superfícies felpudas. A ponta muda a postura da roupa sem exigir volume no corpo inteiro.
Bombers e jaquetas de volume arredondado — 18,6% (8/43): concentram amplitude no tronco e nas mangas. O comprimento mais curto permite que camisa, cinto e saia continuem visíveis.
Evasê com pregas ou plissados — 18,6% (8/43): reúne o chemise e as saias midi. A abertura da parte de baixo cria movimento e contrasta com cintos e terceiras peças mais compactas.
Comprimentos mini — 18,6% (8/43): aparecem em saias, shorts, vestidos e no casaco usado como peça principal. As pernas à mostra equilibram golas altas e partes superiores mais fechadas.
Vestidos de noite assimétricos — 9,3% (4/43): recortes, drapeados, fendas e diferenças entre os lados fazem a modelagem assumir o protagonismo.
TRUQUES DE STYLING
Golas de camisaria levantadas — 41,9% (18/43): criam uma moldura para o rosto e deixam a camisa participar do look mesmo quando quase toda a peça está coberta.
Punhos de camisaria expostos — 25,6% (11/43): aparecem além da manga da terceira peça. É uma intervenção pequena, mas muda a proporção e evidencia a sobreposição.
Camisa + polo rugby + jaqueta — 11,6% (5/43): o esportivo entra entre duas camadas. A combinação fica mais interessante quando gola, punho e barra continuam aparecendo.
Correntes em camadas ou múltiplas voltas — 27,9% (12/43): o colo recebe mais peso visual. Em vez de um colar discreto, a composição passa a fazer parte da silhueta.
Cinto de bridão ampliado sobre o quadril — 11,6% (5/43): destaca o início da saia e desloca o foco da cintura natural. A ferragem funciona quase como uma peça de roupa.
Franjas sobre calças — 7% (3/43): criam o efeito de saia sobreposta sem esconder completamente a parte de baixo. O movimento fica concentrado entre cintura e coxa.
Meias aparentes com scarpins — 16,3% (7/43): aproximam o sapato de salto do universo colegial. A meia deixa de ser invisível e passa a separar visualmente saia e calçado.
Tricô amarrado sobre os ombros — 2,3% (1/43): reforça a referência preppy na abertura. Com camisa mais curta e calça ajustada, o gesto parece menos protocolar.
A camisa não mudou de categoria. Mudou de atitude. E isso já transforma o look.
A força comercial do recorte está nas categorias familiares: camisa, blazer, calça estreita, saia midi, polo e jaqueta. O interesse aparece no ajuste fino. Uma camisa encurta, um ombro sobe, uma saia ganha couro, um casaco arredonda. A coleção oferece diferentes níveis de intensidade dentro do mesmo universo, da peça de uso mais direto à produção de imagem.
Os acessórios ajudam a costurar essas diferenças. O bridão aparece no cinto e nos sapatos; correntes atravessam bolsas e colares; totes estruturadas encontram roupa próxima do corpo. O cinto 3X, formado pela repetição de três bridões, também reaparece como linguagem de uma bolsa pequena. É um código que muda de função, mas continua contando a mesma história.
ROUPAS
Camisas com gola e abertura frontal — 41,9% (18/43): são uma das bases mais consistentes. Aparecem sozinhas, sob alfaiataria e nas sobreposições preppy, em versões amplas ou mais ajustadas.
Calças estreitas — 27,9% (12/43): a família inclui diferentes comprimentos e graus de ajuste. Dentro dela, as propostas skinny, leggings e capri mais aderentes aparecem em 16,3% dos looks.
Bombers e jaquetas arredondadas — 18,6% (8/43): formam a principal família de volume. Couro, superfícies felpudas, tecidos de aspecto técnico e desenhos ornamentais mudam a leitura do mesmo tipo de produto.
Blazers e jaquetas curtas de alfaiataria — 16,3% (7/43): aproximam-se da cintura e deixam saias, calças e acessórios participar da imagem. O comprimento é tão importante quanto o ombro.
Saias midi plissadas — 16,3% (7/43): aparecem em tartã, couro e tecido liso. A repetição confirma a importância do produto para a construção das sobreposições.
Casacos de alfaiataria e trenchs midi — 14% (6/43): preservam a ideia de guarda-roupa clássico, mas recebem ombros, golas e formas de uso que aumentam sua presença.
Polos de referência rugby — 11,6% (5/43): as listras e a gola trazem a memória do uniforme esportivo. Na combinação com saia, salto e joias, deixam de funcionar como roupa exclusivamente casual.
Saias lápis ou retas midi — 7% (3/43): oferecem uma alternativa mais próxima do corpo. Ganham força ao lado de camisa ajustada, lingerie ou casaco volumoso.
Vestidos de noite drapeados e assimétricos — 9,3% (4/43): concentram a sensualidade no corte. Uma única abertura, fenda ou queda de tecido organiza a peça inteira.
Chemise midi evasê — 2,3% (1/43): combina gola marcada, abotoamento frontal, cintura ajustada e saia ampla com pregas. É uma peça pontual, mas com tradução comercial direta.
CALÇADOS
Scarpins de bico fino — 67,4% (29/43): são o calçado mais consistente do recorte. A forma alongada acompanha tanto a alfaiataria quanto o preppy e as sobreposições de franjas.
Botas de cano alto com referência de montaria — 16,3% (7/43): aparecem com calças por dentro do cano, peças curtas e trench. A atualização está na combinação entre desenho equestre, bico e salto.
Sandálias de salto — 14% (6/43): acompanham as propostas mais abertas e a sequência final de noite. As tiras preservam a leveza diante de vestidos com bastante informação de modelagem.
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